My life with Master

My life with Master é um jogo muito diferente do que estamos acostumados a jogar, os jogadores são lacaios de um “mestre” cruel e inumano , e seguem servindo-o até que tenham desenvolvido amor o suficiente para enfrentarem seu mestre e finalmente matarem-no, e terem um final, que pode ser feliz ou não.

Inspirado em histórias como de Igor, ajudante do professor Frankesntein, Quasimodo (o corcunda de notredame) dentre outros exemplos, Paul Czege nos conta a história de pessoas que são perturbadas as vezes mais do que os vilões a ponto de se sujeitarem a tais práticas, e propõe que o jogador mergulhe nesse mundo, e interprete alguém que tenta se livrar das amarras da auto-depreciação. Na verdade os personagens tem apenas dois atributos: cansaço e auto-depreciação, o que mostra a intenção do sistema, de mostrar que apenas isso irá importar em você para poder enfrentar o cenário e seu mestre. Outro atributo que os personagens tem, mas que começa em zero, é o amor, e o amor é a única forma de conseguir forças para alcançar o fim-de-jogo, não existe outra forma. Podemos pensar então que a proposta de Paul é mostrar como o amor possibilita que a loucura e a depressão seja contida, como o amor pode salvar uma pessoa.

Antes de começar o jogo os jogadores e o mestre tem que sentar e decidir dois “atributos” do cenário, o valor de medo e razão, medo é a força da presença do mestre na cabeça de cada um e razão é o nivel de “saúde psíquica” da população que vive nos arredores do covil.

Os jogadores também escolhem dois aspectos, o “menos que humano” e o “mais que humano”. São descrições de como seu personagem transcende o humano tanto para cima quanto para baixo, o jogador cria os aspectos onde ele se destaca e cada situação criada tem que ter uma excessão, um exemplo de menos que humano é “só como carne humana” e a excessão seria algo como “a não ser quando alimentado por uma criança”. Mais que humano seria algo como “ninguem o encontra quando ele se esconde” e a excessão seria “a não ser quando esta sobre direta luz do sol”. Nos momentos onde seus aspectos entram em jogo o teste é automaticamente bem sucedido ou mal sucedido, dependendo de qual aspecto está em jogo.

O jogo se desenrola com duas forças, os jogadores pedem para o mestre cenas com suas conecções, as pessoas que eles gostam, e a cada cena feita o jogador ganha um ponto de amor, mas dependendo do resultado da cena ele pode se auto-depreciar mais ou não. O mestre é encorajado a rodiziar entre os jogadores e dividir as cenas em duas partes e mestrar a primeira parte e logo passar para outro jogador, deixando o final da cena para depois. A segunda força é a do “mestre” que não deseja perder seus lacaios e quando percebe o que está acontecendo pode colocar os lacaios um contra os outros e criar situações dificeis para eles.

O melhor pedaço desse pequeno livro sem duvida nenhuma é o estudo que Paul faz sobre a mente insana do “mestre”, mostrando como ela funciona, dividindo ele em categorias e formas de agir, dando muitos exemplos na literatura e exemplos de jogo onde tal mestre aparece. Uma breve explicação sobre Necessidade (need) e Vontade (want), mostram que o mestre ao mesmo tempo precisa de algumas coisas, como corpos, sangue ou alunos, essas são suas necessidades. As vontades são o motivo das necessidades, o mestre esta sempre tentando impressionar um grupo, chamado genialmente de “forasteiros” (outsiders), então ele desenvolve uma necessidade para saciar sua vontade. Um exemplo para esclarecer seria o do Dr. Frankenstein, ele precisa de pedações de corpos, mas ele quer na verdade impressionar os cientistas de sua época com suas pesquisas sobre a vida e a ressureição.

Os mestres são divididos em dois grandes grupos, os Cérebros e as Bestas, a divisão parece óbvia mas com alguns esclarecimentos mostra sua profundidade, o Cérebro busca seus objetivos através de ações mentais e psicológicas enquanto a Besta tenta alcançá-los de forma física. Após essa divisão ele propõe mais uma classificação, que é a forma como ele tenta alcançar sua necessidade, e elas são: o alimentador (feeder), o criador (breeder), colecionador (collector) e o professor (teacher). Continuando com nosso exemplo acima (que é usado no livro) Frankenstein é um Cérebro criador, brain breeder, ele tenta criar formas de vida através do estudo. Mas como Paul mesmo adverte, os bons mestres devem desafiar a classificação, mesmo o Dr. do exemplo ainda busca corpos e por isso poderia ser considerado e parte uma Besta. O exemplo como os diferentes tipos de Drácula, que foram retratados por diferentes atores no cinema, se encaixam em diferentes classificações é primoroso.

MLWM é um jogo de pura interpretação, a resolução de conflito é feita apenas uma vez por cena, ou seja, existe apenas uma jogada por cena que decide o resultado. Outro elemento que vem se tornando cada vez mais comum no rpg indie é uma mecânica de endgame, ou seja, uma mecânica que se ativa a partir de certas e tem a intenção de finalizar a história.

O endgame, fim de jogo, começa quando algum jogador consegue resistir à alguma ordem de seu mestre e ao mesmo tempo possui mais amor do que seu medo + seu cansaço. Nesse momento começa uma luta física desse personagem com o mestre que acabará com a morte do mestre, ao mesmo tempo a dinamica dentro das cenas muda e os outros personagens presos em outras cenas correm para conseguirem alcançar os atributos que desejam antes que o jogo acabe. Quando o mestre morre cada personagem descreve detalhadamente o destino de seu personagem, mas esse destino é amarrado com os atributos finais do personagem, podendo causar então na morte do personagem pelos aldeões, ou auto-destruição, servidão à outro mestre e até, caso o personagem termine sem amor nenhum ele pode se transformar em um mestre para outros lacaios. Esse final pode ser apressado caso se queira que todo o jogo dure uma sessão, e para isso é necessário que os jogadores comecem com algum amor já.

Enfim, MLWM é um jogo muito divertido, e com certeza diferente para nosso mercado brasileiro, feito para poucas sessões, um tipo diferente de jogo e relação entre o papel do personagem no cenário e a motivação só consegui encomendar diretamente com o autor, tive que mandar um email pessoal para ele, e nem no IPR você encontra uma cópia. Para os que conseguirem.

Prós:

  • Sistema realmente inovador
  • Estudo brilhante sobre a mente insana do “mestre”
  • Sistema que integra interpretação com a resolução de conflito

Contras:

  • Dificil de arrumar
  • Gosto muito especifico que não agrada a maioria dos jogadores
  • Muito pequeno para o preço pago com imagens muito simples

Editora: Half Meme Press

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