O monstro do armário

O Monstro do Armário

Recentemente comecei a jogar com um grupo de rpg em grande parte formado por iniciantes. Ver o hobby crescer aos olhos deles é uma motivação e um novo fôlego pra mim. Posso comparar a sensação de jogar com eles a sensação que um homem ao passar pela crise da meia idade deve ter ao namorar uma garota vinte e poucos anos mais jovem. Ainda estou longe da minha própria crise de meia idade, na verdade deveria estar vivendo a vida que muitos homens mais velhos almejam, mas isso é algo que não vem ao caso no momento.

O fato é que ao compartilhar da mesa de jogo com esses iniciantes eu inevitavelmente me vejo relembrando o passado. Não é exatamente a mesma coisa, apesar da grande diferença de idade que possuímos atualmente, eu era muito mais jovem quando passei por certas situações as quais vejo se repetindo em nossa mesa atualmente e agora com mais experiência e maturidade possa ter melhores soluções para os antigos dilemas.

Tenho a grande oportunidade de jogar duas seções diferentes com eles por semana, mesmo que sejam seguidas uma da outra, temos nos dedicado a jogar tanto D&D quanto Vampiro A Máscara, a seção a qual eu tomo o papel do narrador. Quando Vampiro surgiu aqui no Brasil e adquiriu status de sistema grande eu já jogava a anos e talvez por causa de um certo preconceito ou medo do novo desconhecido tenha demorado para me juntar com meu antigo grupo de jogo e realmente apreciar os benefícios do sistema do mundo das trevas e o que ele trazia para nós brasileiros. Essa demora de certa maneira me fez perder a crista da onda mas conseguiu me manter longe dos recifes quando a onda quebrou e levou junto a prancha de surf.

Vampiro em sua primeira e talvez segunda edição tinha um foco mais voltado para o conflito psicológico, um ser humano ter de lidar com seus próprios conflitos humanos ao tentar conviver com o fato de ter se transformado em um parasita que poderia muito bem acabar matando um ser humano. Sua intenção era que os jogadores passassem a refletir sobre a verdadeira condição humana e como lidar com ela. Uma proposta por deveras altruísta, por assim dizer, mas como todas as boas idéias, aquelas verdadeiramente inspiradoras, acabou sendo racionalizada e ultrapassada. Mais a última do que a primeira.

Em primeiro lugar poucos eram os indivíduos jogadores de Vampiro que realmente conseguiam se abstrair e interpretar os verdadeiros conflitos de seus personagens se tornando caçadores de sangue humano, lobos disfarçados de ovelhas caminhando entre o rebanho. Afinal qual de nós já realmente passou por uma situação remotamente parecida com esta? Aqueles que tentaram podem ter conseguido extrair de si mesmos as perguntas e conflitos que seus personagens poderiam estar passando, mas por quantas vezes eles conseguiram manter essa mesma postura na mesa durante diferentes seções de jogo, por que afinal uma hora ou outra deparávamos com o fato que nossos personagens na verdade se afastaram da humanidade, não importando o quão apegados a nossas antigas peles de cordeiros, nossos personagens haviam de fato se tornado lobos.

Durante meu tardio começo com Vampiro eu também tentei abraçar o manto de horror psicológico que era tão mesmerizante e aflitante e que diferenciava inicialmente o sistema e ambientação, mas como muitos fui de maneira inconsciente me focando cada vez mais na natureza monstruosa da coisa e me afastando cada vez mais do horror pessoal. Os poderes e já evidente natureza vampírica acabaram se tornando os focos de minhas campanhas e personagens. Logo estava pensando mais nas políticas dos clãs e seitas do que no mundo mortal que cercava os personagens. Meu gangrel que antes tinha problemas em como explicar a sua namorada por que havia largado a faculdade e não tinha mais apartamento ou meu malkaviano que não desejava deixar sua pobre mãe desamparada já que não trabalhava mais naquele importante escritório de contabilidade simplesmente passaram a ignorar sua antiga vida mortal de maneira súbita, afinal um tal de sabá havia acabado de chegar à cidade e isso parecia estar conseguindo irritar até o príncipe ‘minha vida’ podia esperar até resolvermos este pequeno problema, não podia?

Isso aconteceu tão rápido quanto foi a semana que separou as duas seções de jogo. Naquela época eu mal me dei conta da mudança de foco da campanha. Assim como não me dei conta de como a mesma coisa aconteceu na campanha que estou mestrando aos jogadores iniciantes. Começamos com uma aventura introdutória ao sistema aonde aparentemente consegui apresenta-los ao antigo conceito de horror pessoal, a necessidade da caçada e as mudanças trazidas pela transformação.

Na minha segunda aventura eu já havia colocado o sabá na cidade e mal havia reforçado a idéia de problemas herdados pelas vidas mortais dos personagens. Acredito que tenha tomado tal atitude de forma inconsciente mais por hábito do que por uma decisão racional ponderada sobre os perfis dos jogadores. Agora temo ter abandonado uma excelente oportunidade para aventuras girando em torno de namoradas e familiares e responsabilidades mortais: uma campanha voltada à humanidade dos personagens tentando superar seu lado vampiro, que já foi o vilão mais atemorizante de muitas mesas de jogo. Acho que na próxima sessão devo sentar e compartilhar essas preocupações com meus jogadores, afinal eles podem ser iniciantes e talvez por isso sejam a peça mais importante do grupo de jogo…

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