A Lojinha de Quarterstaff de Salim

Olá novamente imediato, vejo que já esta se acostumando com a vida em alto mar. O seu tom de verde já está bem mais corado pelo sol e sua pele mais curtida pelo vento e a maresia. Não desanime desse jeito, com o passar do tempo você supera essa reação exagerada a falta de solo firme…

O assunto da coluna de hoje é um aspecto da campanha que alguns chamam de vida do cenário, outros de fluidez, muitos consideram parte da verossimilhança ou coesão do cenário: Pequenos detalhes que demonstrem que o cenário tem vida; reflexos e reações alheias aos PCs que demonstrem a dinamicidade e personalidade individual ou coletiva.

Acredito que o conceito esteja meio abstrato por isso vou me utilizar do título do artigo* para caricaturar este aspecto: Salim, um ladino empreendedor de D&D, percebe que inúmeros magos iniciantes se utilizam de cajados (quarterstaff em inglês) como arma principal (N.A: posteriormente como foco de suas magias no famigerado D&D quarta edição). Estes magos não costumam ter gasto suas preciosas POs em armas caras ou qualquer tipo de armaduras quase sempre tendo mais dinheiro para gastar no início de suas carreiras de aventureiros do que seus companheiros de grupo.Custo = -

O sagaz ladino também percebeu que tais armas não possuíam custo algum, sendo apenas necessário que o “comprador” “gastasse” alguns momentos em regiões ricas em vegetação para obter seu próprio exemplar. Só que magos não são conhecidos por sua alta disposição em ficar andando por ai no mato procurando um pedaço de madeira que lhe conviesse para utilização do mesmo com um recurso que nenhum deles gostaria de se valer: como uma arma de combate corpo-a-corpo.

Se valendo de uma característica nunca pronunciada pelos sábios nos templos dos deuses ou seus equivalentes: a lei da oferta e da procura, nosso esperto empreendedor resolveu estabelecer-se em uma região urbana hiperpopulada com difícil acesso a regiões de vegetação, onde essas armas largamente utilizadas pudessem ser encontradas com facilidade, e passou a gastar seu tempo ele mesmo acumulando todo e qualquer cajado que pudesse ser encontrado na região.

Assim, como único detentor do recurso ele passou a revender os cajados a 1 PO cada. Seja pela facilidade de encontrar suas armas favoritas em uma loja perto do centro comercial da cidade ou pela falta de opção os magos iniciantes que habitavam a cidade passaram a comprar os cajados de Salim que em pouco tempo construiu uma fortuna invejável a qual ele continuou a aplicar em seu negócio ampliando também para o público utilizador de clavas…

A caricatura acima pode parecer exagerada mas há diversos indícios de estudos sobre empreendimentos parecidos que deram certo no mundo real. Aparentemente Salim conseguia transformar um item gratuito, pelo preço do Livro do Jogador, em uma venda de 1 PO, possuindo matematicamente um lucro imensurável que em pouco tempo e com muito menos ricos podem ter deixado Salim tão rico quanto um personagem de alto nível.

Mas, há sempre um mas, isso apenas corrobora para o fato que inúmeros comerciantes dos cenários medievais gastarem fortunas contratando aventureiros para proteger/resgatar um ente querido já que não há como alguém que se dedique tanto a um negócio adquirir tantos níveis quanto um verdadeiro aventureiro.

É lógico que o RPG em si é baseado em escolhas, se Salim o ladino escolheu ser um rico comerciante ele provavelmente não teve tempo de se aventurar, o que já indica com certeza que este personagem é muito mais adequado a ser um NPC do que um PC. Agora, assim como acontece em alguns MMPORPGs, é possível que alguns jogadores se interessem por esse estilo de jogo de minerar, pescar, caçar ou comercializar itens.

Eu poderia discorrer agora sobre a aplicabilidade dos sistemas de regras para englobar uma campanha focada na economia do cenário ou algo que o valha, mas o objetivo deste artigo é mostrar como pequenos detalhes podem fazer a diferença:

O que o mago do grupo faria para conseguir seu cajado na cidade de Salim? Ele pagaria a 1 PO provavelmente, mas como ficaria isso em regras: O Narrador anunciaria antes da criação dos personagens que a cidade onde os PCs vão dar inicio a campanha possui um monopólio de cajados e clavas obrigando o jogador a dispênder 1 PO para poder ter a arma mesmo que o LdJ diga o contrário? Alguém daria início a uma cruzada contra o monopólio institucionalizado pelo “maligno” ladino? O comerciante prodígio seria ameaçado por grupos criminosos que tiveram sua ganância alimentada pela visão da quantidade de ouro fluindo em sua loja?

Nenhuma das respostas às perguntas a cima é relevante mas as perguntas por si só o são. As respostas são individuais para cada grupo mas o importante é que como Narradores aprendamos a fazer esse tipo de perguntas:

Em uma campanha onde a floresta dos elfos foi queimada pelo exercito orc, aonde vão os refugiados após a gloriosa vitória da coalizão anã-élfica-humana? Se o Lich maligno transformou os mortos do cemitério da cidade em seu exército particular, o que a população da cidade fará após ser salva pelos PCs? Eles passarão a queimar seu mortos para que tal situação não volte a ocorrer ou eles consideram a cremação algo indigno ou acreditam que isso impedirá alma de encontrar seu caminho para o paraíso?

A cada pergunta feita que tem sua resposta elaborada pelo Narrador cria mais um detalhe que até pode parecer insignificante mas que ao ser compartilhado com seus jogadores transmite um aspecto mutável e único do cenário que vivem os PCs, passando uma enorme sensação de vida.

Repare que a origem das respostas que transmite essa sensação de cor e vida tem maior efeito se elaborada sem uma decisão diretas dos PCs, por que se todo o cenário se basear na decisão dos PCs ele não é um cenário vivo mas sim reativo.

Afinal, se os PCs consseguiram convencer a tribo orc que vivia nas montanhas a auxiliar o exército do reino contra a invasão Yuan-Ti talvez Salim queira vender suas clavas aos bárbaros orcs criando assim uma porta de abertura que poderia levar a uma integração permanente entre as raças na região.O que fazer com os corpos?

Legenda

* Essa situação foi elaborada pelo meu companheiro escritor Purple Vicking em uma de nossas inúmeras discussões sobre RPG. Apesar de possuir um ar cômico esta situação foi inicialmente abordada como ponto de partida de uma discussão sem muitas pretensões, mas de maneira séria para entendimento deste mesmo aspecto de campanha abordado neste artigo. Só posteriormente, após larga utilização do mesmo e diversos acréscimos de detalhes à estória original, é que este assumiu de vez sua eterna classificação como piada interna, hoje difundida entre inúmeros grupos de jogo com participantes a mim relacionados. Mas deixo aqui registrado, como em todas as vezes em que conto esta história, a verdadeira autoria da idéia para aqueles que a tenham ouvido de segunda mão saibam a quem creditá-la.

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